sexta-feira, 23 de outubro de 2020

A minha primeira onda

 


Não me lembro da primeira vez que vi o mar, pois morava há uns duzentos metros da praia do Mucuripe e uns dois quilômetros da Praia do Futuro. Quando abri os olhos para a existência, portanto, ele já estava lá, tão antigo quanto o mundo. Do meu bairro, situado no alto de uma duna ancestral de Fortaleza, era só andar um pouco que se podia avistar o verde mar, que alimentou meus avós e meus pais. O mar era o meu quintal d’água.

Então, desde criancinha, ia sempre à praia. Porém, da primeira vez que entrei sozinho no mar e fui surpreendido, nunca esqueci. Foi um misto de emoções: contemplação, susto e medo.

Tinha oito anos e eram férias escolares. Desci com os meus pais até a Praia do Futuro. O Oceano Atlântico me surpreendeu com sua beleza, sua incrível extensão de água verde, com ondas brancas que rolavam até onde os meus olhos podiam ver, sob um céu claro e um sol de verão, brilhante e quente, cujos raios de luz eram afiados como canivetes.

Fiquei encantado com a visão e o som daquelas ondas sem fim e mal podia esperar para entrar na água. A princípio não fiquei com medo, como muitas crianças que ficavam a se deparar com aquele pedaço de infinito. Era como se me chamasse. Meus pais distraídos não me viram largar as sandálias na areia e correr freneticamente em direção ao mar.

Ninguém me avisou sobre o poder colossal de uma onda. Antes que eu soubesse o que tinha acontecido, fui atacado por uma parede de água em movimento e arremessado contra parte rasa da areia molhada. Sentei-me cuspindo e tossindo água salgada que passava ardendo em minha boca e nariz. Minha testa e meus braços estavam avermelhados e arranhados. Veloz como uma albatroz, a minha mãe veio em meu socorro e me levou para a faixa de areia. Fiquei magoado, chocado e, sobretudo, muito confuso.

Claro que tive medo de entrar no mar novamente. Sentei-me no raso e fiquei, ainda chateado, encarando as ondas. Olhava tudo: o horizonte, os surfistas singrando as águas, as pessoas nadando, as crianças brincando, os navios ao longe. Mesmo criança, assustado e atento, com o tempo, fui lendo as cadências das ondas, onde elas eram maiores, onde quebravam, o intervalo de uma onda a outra. Uma hora depois, para não desperdiçar aquela manhã de domingo, entrei no mar novamente, mas com os meus pais. Prevenido, o mar não me pegava mais. O medo cedeu lugar ao divertimento. E eu estava fazendo as pazes com ele, selando uma amizade duradoura.

Esse episódio, na Praia do Futuro, me marcou profundamente e me trouxe uma rica lição. A vida é como o mar. Em um minuto, estamos vadeando em águas pacíficas e, no momento seguinte, somos atingidos por uma onda poderosa que nos derruba. Às vezes, a onda estava lá, vindo em nossa direção, mas não dávamos importância. Uma onda pode nos deixar atordoados e sem fôlego. Somos derrubados, atirados na areia ou puxados para baixo. E se o mar nos arrastar e nos afundar, lutamos para respirar e voltar a superfície. A vida como o mar é repleta de ondas de alegria, de prazer, de dor e de tristeza que fluem incessantemente. Contudo, devemos respeitá-lo na sua imensidão, mistério e imprevisibilidade. Se aprendermos a lê-lo, se acostumarmos com ele, tentando conhecer os seus meandros e, claro, se aprendermos a nadar e a saltar suas ondas, ou mesmo surfar, não será antagonista, mas nosso amigo.

Ele está lá todos os dias, esperando-me por meus pés sobre suas águas e sentir a sua força infinita. A cadência perpétua do vasto mar traz essas ondas que fluem, ora calmas, ora agitadas. Perceber que a vida é um ciclo é importante, porque seremos constantemente gratos, visto que sempre haverá algo para ser grato, apesar das quedas e arranhões.

 


quinta-feira, 22 de outubro de 2020

A NORMALISTA – A ATUALIDADE DE UM ROMANCE POLÊMICO

Charles Ribeiro Pinheiro

Qual a relevância do romance “A normalista”, publicado em 1893, por Adolfo Caminha, escrito nos moldes do naturalismo, no qual retrata, implacavelmente, os vícios, as tramas, os dessabores, a bajulação política, as aparências sociais, a maledicência, o escárnio e a hipocrisia da sociedade de Fortaleza? Ao observar a sua estrutura narrativa e seus temas, percebemos que “A normalista” se insere na tradição dos romances que não servem apenas para o entretenimento, mas como forma de sensibilizar o leitor e de levá-lo a conhecer as intricadas relações sociais que são representadas no papel. A seguir, traçaremos um breve perfil do autor e discutiremos questões literárias e históricas expressivas acerca do polêmico romance.

O escritor, nascido no Ceará, em 1867, após perder a família durante a seca de 1877, parte para o Rio de Janeiro. Ingressou na Escola da Marinha, de onde saiu como oficial, aos vinte anos, em 1887. No ano seguinte, transferiu-se para Fortaleza, onde se apaixonou por Isabel Jataí de Paula Barros, esposa de um oficial do exército. O episódio causou escândalo em Fortaleza, forçando-o a pedir demissão da Marinha e assumir o compromisso com Isabel. 

Nos primeiros anos da década de 1890, tem uma intensa atividade jornalística na capital cearense. Em 1891, funda a “Revista Moderna” e, no ano seguinte, participou da primeira formação da Padaria Espiritual, irreverente grêmio literário e artístico formando na Praça do Ferreira, liderada por Antônio Sales. Em seguida, retorna com a família para o Rio de Janeiro, onde atuou na imprensa carioca. Acometido de tuberculose, faleceu em 1897, aos trinta anos. A sua obra não é vasta, porém é muito significativa. Após a publicação de um livro de poemas “Voos incertos” (1886) e um de novelas “Judite e Lágrimas de um crente”(1887), e do diário “No país dos Ianques” (1894), publicou as suas principais obras: ‘A normalista” (1893), “Bom Crioulo” (1895), “Cartas Literárias” (1895) e “Tentação” (1896).

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Bate-papo_A Normalista de Adolfo Caminha_Série bom Livro

 


Bate-papo sobre o romance “A Normalista” (1893), do escritor cearense Adolfo Caminha, com a participação do professor Charles Ribeiro Pinheiro, promovido pelo canal do Instagram @seriebomlivro, com a curadora do professor João Paulo Foschi, que realiza um importante trabalho de resgate da memória editorial dos clássicos da Literatura brasileira, publicados pela Editora Ática. Acompanhando a tradição dos romances de costumes, “A Normalista” é um dos mais polêmicos livros do naturalismo brasileiro, a realizar uma representação atroz da hipocrisia, da dominação masculina, da maledicência, da mesmice provinciana e da molecagem da cidade de Fortaleza, capital do Ceará, no final do século XIX. Bate-papo realizado no dia 18 de outubro de 2020, no ig

João Paulo Foschi, nascido em Crateús (CE), em 1980, possui formação acadêmica em Pedagogia e Letras (Francês), com pós-graduação na área de Semiótica e Literatura e mestrado em Literatura Comparada pela Universidade Federal do Ceará. Como ficcionista, publicou o romance “A condessa de Assis”. Idealizador e curador do projeto @seriebomlivro, no Instagram.
Charles Ribeiro Pinheiro é Professor de Literatura, graduado em Letras pela Universidade Federal do Ceará (2008). Mestre em Letras (2011) e Doutor em Literatura Comparada (2019), pela UFC, com pesquisas sobre Rodolfo Teófilo. Coordenador do projeto de extensão e docência “O entre-lugar na Literatura cearense” (2015-2018). Além de roteirista de quadrinhos, é autor de livros didáticos e conteudista de Literatura.

sábado, 10 de outubro de 2020

Bate-papo A normalista de Adolfo Caminha - Série Bom Livro

Não percam esse excelente bate-papo sobre o romance A Normalista (1893), do escritor cearense Adolfo Caminha. A Live conta com a participação do professor Charles Ribeiro Pinheiro e é promovida pelo canal @seriebomlivro que tem a curadora do professor João Paulo Foschi, que vem fazendo um importante trabalho de resgate da memória editorial dos clássicos da Literatura brasileira publicados pela Editora Ática. A Normalista é um dos mais polêmicos livros do naturalismo brasileiro, a realizar uma representação atroz da hipocrisia, do falso moralismo, da dominação masculina, da maledicência, da mesmice provinciana e da molecagem cearense da cidade de Fortaleza, Ceará, no final do século XIX. Não percam. É no próximo domingo, dia 18 de outubro.

https://www.instagram.com/seriebomlivro/?hl=pt-br

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Narradores de Javé: tensões e salvação pela palavra

 

“Narradores de Javé” é uma narrativa sobre narrativas. Lançado em 2003, com direção/roteiro de Eliane Caffé e roteiro de Luís Alberto de Abreu, conta com José Dumont; Gero Camilo; Rui Resende; Luci Pereira; Nélson Dantas; Nélson Xavier no elenco. É um dos filmes brasileiros mais premiados das últimas décadas, além de suscitar ricas e variadas possiblidades de interpretação.

O título do filme chama atenção por dois elementos essenciais de seu enredo: “Javé”, cenário da história, cidade pobre do interior da Bahia, que precisa ser salva de uma futura inundação, devido a construção de uma barragem hidroelétrica; e “narradores”, substantivo no plural, que corresponde aos habitantes dessa cidade, não apenas personagens, mas um conjunto dinâmico e polifônico de vozes, materializações efêmeras das experiências e histórias do povo. Portanto, o filme conta a luta de um povo para reconstituir a sua história, através da oralidade, para salvar a sua cidade da inundação.

O protagonista do filme é o próprio ato de narrar. Isso foi meticulosamente construído no roteiro de Caffé e Abreu. Quando nós narramos uma história, abrimos conexões. É assim que os humanos se comunicam desde o início dos tempos - contando histórias e nutrindo conexões. Contar histórias é universal e tão antigo quanto a humanidade. Antes de haver escrita, havia o ato de narrar. Ocorre em todas as culturas e em todas as épocas. Ela existe (e existiu) para entreter, informar, educar e promulgar tradições e valores culturais.

As pessoas, ao narrar histórias, dão forma as suas experiências e aos significados que essas experiências têm para suas vidas. Todas as culturas e sociedades também possuem suas próprias histórias sobre seu passado e seu presente e sobre sua visão do futuro. Essas narrativas incluem histórias de grandeza e heroísmo, ou de dor e sofrimento.

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Rodolfo Teófilo - Romancista Cearense

 

Baiano por acidente e cearense de coração, farmacêutico e literato, Rodolfo Teófilo (1853-1932) foi uma figura de intensa atuação política e cultural durante a passagem do século XIX ao XX no Ceará. Intelectual engajado, foi um ferrenho opositor da oligarquia Accioly (1896-1912); além de denunciar o descaso do governo em relação às secas, participou ativamente da campanha abolicionista (1881-1883) e, contrariando os seus opositores, conseguiu erradicar a varíola do estado do Ceará (1900-1907). A singularidade do naturalismo literário de Rodolfo Teófilo acentua-se através da presença constante da “cor local“, cujo objetivo era fotografar a nossa época, os costumes, índole e civilização do nosso povo. O seu romance de estreia é A fome (1890), que narra, com um estilo cru e dantesco, os flagelos assustadores, acontecidos durante a grande seca de 1877-78. Rodolfo Teófilo subtitulou o livro como “cenas da seca do Ceará“ e é considerado um dos textos mais fortes da literatura brasileira. O livro é eivado de descrições cruas e exageradamente cientificistas dos retirantes agonizando e morrendo devido à fome e à epidemia de varíola que assolou a capital cearense. Foi na década de 1890, que Rodolfo Teófilo participou da famosa Padaria Espiritual, da qual foi o seu último padeiro-mor (presidente). Por meio dessa agremiação literária, o farmacêutico publicou a maior parte de seus romances mais destacados: Os Brilhantes (1895), Maria Rita (1897), Violação (1898) e O paroara (1899). Rodolfo Teófilo tentou representar fidedignamente os problemas sociais, políticos e ecológicos do Ceará e do nordeste de sua época em suas obras literárias.

Pesquisa Acadêmicas sobre Rodolfo Teófilo 

Pesquisador: Charles Ribeiro Pinheiro

DISSERTAÇÃO: Rodolpho Theophilo: a construção de um romancista (2011).
Local: Programa de Pós-Graduação em Letras - UFC.
Orientação: Prof.ª Dr.ª Odalice de Castro Silva.
Resumo: Esta dissertação realizou uma investigação da formação intelectual e literária de Rodolfo Teófilo (1853-1932), verificando como se deu o seu amadurecimento como ficcionista em O paroara (1899). Para tal propósito, situamos, de maneira crítica, o referido autor em sua conturbada época e espaço social: a Fortaleza da Belle Époque. A pesquisa dividiu-se em três capítulos: o primeiro relacionou o escritor ao contexto em que está inserida a sua obra ficcional, além do estudo de seu campo intelectual e literário; no segundo, o estudo da dinâmica dos processos de leitura e desleitura e, no terceiro capítulo, como ocorreu a construção do estilo naturalista-regionalista de Rodolfo Teófilo. Ele realizou uma desapropriação poética da escola naturalista e atingiu uma escritura singular, recriando o regionalismo, tornando-se precursor da chamada Literatura das secas. Bolsa: FUNCAP.

Disponível em: PINHEIRO, C.R. 2011_UFC


TESE: Rodolfo Teófilo polemista: a crítica polêmica como estratégia de glorificação literária.
Local: Programa de Pós-Graduação em Letras - UFC.
Orientação: Prof.ª Dr.ª Odalice de Castro Silva.
Resumo: A presente pesquisa investigou as polêmicas literárias de Rodolfo Teófilo, enfatizando os textos críticos publicados na imprensa cearense, como estratégias para atingir a glorificação literária. O escritor confrontou Adolfo Caminha, José Veríssimo, Rodrigues de Carvalho, Gomes de Matos, Osório Duque Estrada e Meton de Alencar em textos estampados em diversos periódicos, posteriormente reunidos na obra Os meus zoilos (1924). O livro dialoga intensamente com os debates da inteligência nacional do final do século XIX, os quais revelam tensões entre vários centros literários, tais como o Rio de Janeiro, Recife e Fortaleza. O escritor integra uma tradição de polemistas brasileiros, a qual teve como importantes representantes José de Alencar e Silvio Romero. Bolsa: CAPES-DS.
Disponível em: PINHEIRO, C.R. 2019_UFC


Portfólio Acadêmico e literário: Portfólio - Charles


sábado, 4 de julho de 2020

Podcast #4 Os 130 anos de A Fome, de Rodolfo Teófilo


No quarto episódio do podcast Encontros Literários Moreira Campos relembraremos os 130 anos de publicação do romance A Fome, de Rodolfo Teófilo.
Romance inaugural da chamada ‘Literatura das secas’, que faria carreira ao longo do século XX, Lira Neto assim o define em O poder e a peste, sua biografia de Teófilo publicada pelas Edições Demócrito Rocha: “Literatura crua, sem meio tom ou maquiagem: o Sol implacável, corpos escaveirados, os horrores da miséria extrema. Romance como ninguém ousara escrever antes sobre o Ceará. Livro assim não podia ter outro nome: A Fome”.
Ambientado no Ceará entre os anos 1877-1879, período da chamada seca “dos três setes”, na qual uma grave epidemia de varíola ceifou a vida de milhares de cearenses, A Fome ganha renovado interesse, em tempos nos quais a pandemia do novo coronavírus parece reeditar as condições e vítimas preferenciais da incidência de qualquer crise sanitária: a desigualdade social e a pobreza, questões infelizmente ainda não contornadas no Brasil contemporâneo.
Rodolfo Teófilo ainda se destacou como farmacêutico, documentarista e historiador, com uma obra voltada ao estudo e à prática de combate aos desmandos da política do período, bem como das graves questões sociais e de saúde de sua época. Foi também integrante da Padaria Espiritual, um dos mais importantes movimentos culturais brasileiros do período, ocorrido na Fortaleza de fins do século XIX.

Para falar sobre o assunto, os ELMC convidaram Charles Ribeiro Pinheiro, mestre e doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal do Ceará (PPGLetras-UFC), pesquisador da obra de Rodolfo Teófilo e professor conteudista no Curso de Literatura Cearense da Fundação Demócrito Rocha (FDR). Charles Pinheiro atua também como autor de livros didáticos, roteirista e designer educacional.

Música de fundo: Odeon (Ernesto Nazareth) - Paul Barton, piano Mediação: Júlio Cezar Bastoni da Silva (DL - UFC).
Fonte: Júlio Cezar Bastoni.


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