quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

INSCRIÇÕES ABERTAS! O Curso "A Fome-130 anos: Rodolfo Teófilo Romancista"


 INSCRIÇÕES ABERTAS! O Curso "A Fome-130 anos: Rodolfo Teófilo Romancista" tem por objetivo homenagear os 130 anos de publicação do polêmico romance "A Fome" (1890), um dos responsáveis pela construção da tradição dos romances da seca na literatura brasileira. O Curso faz parte da campanha cultural que ocorrerá na forma de ocupação digital, durante o mês de dezembro e janeiro de 2021, por meio de produção de postagens, vídeos, uma videoconferência e um almanaque gratuito em forma de ebook (de autoria de Charles Ribeiro Pinheiro e arte por Luís XIII), que se utiliza da linguagem visual das histórias em quadrinhos, como forma de ampliar a divulgação do referido romance e as demais obras ficcionais de Rodolfo Teófilo.

O Curso, ministrado pelo Prof. Dr. Charles Ribeiro Pinheiro, consistirá em cinco encontros virtuais que abordarão questões interessantes e relevantes do romance A fome, ressaltando Rodolfo Teófilo como um escritor-leitor, ao investigar as leituras que formaram a sua cosmovisão cientificista, assim como a construção de seu estilo naturalista-regionalista, cuja obra ficcional o tornou o precursor da chamada "Literatura das secas".

O Curso ocorrerá virtualmente por meio da plataforma Meet (google), nos dias 28 e 30 de dezembro de 2020; 04, 06 e 11 de janeiro 2021, no horário de 18h às 19h.

Público alvo: alunos de graduação ou graduados em Letras e, além dos Cursos de Ciências Humanas, demais interessados em Literatura Cearense.

Não perca essa oportunidade!

"Este Projeto é fomentado com recursos da Lei 14.017/2020 - Lei Aldir Blanc - por meio da secretaria municipal da cultura de Fortaleza".

Inscrições por meio do link:  https://forms.gle/oM1TLnm8J2EtehvA6

Página do Curso: https://caminhosdapesquisaliteraria.webnode.com/a-fome-130-anos/

Informações:  entrelugar.literaturacearense@gmail.com

Instagram:  @prof.charles.ribeiro.pinheiro

Twitter: @Charles_Rib_82

Facebook: https://www.facebook.com/prof.charles.ribeiro.pinheiro




sexta-feira, 23 de outubro de 2020

A minha primeira onda

 


Não me lembro da primeira vez que vi o mar, pois morava há uns duzentos metros da praia do Mucuripe e uns dois quilômetros da Praia do Futuro. Quando abri os olhos para a existência, portanto, ele já estava lá, tão antigo quanto o mundo. Do meu bairro, situado no alto de uma duna ancestral de Fortaleza, era só andar um pouco que se podia avistar o verde mar, que alimentou meus avós e meus pais. O mar era o meu quintal d’água.

Então, desde criancinha, ia sempre à praia. Porém, da primeira vez que entrei sozinho no mar e fui surpreendido, nunca esqueci. Foi um misto de emoções: contemplação, susto e medo.

Tinha oito anos e eram férias escolares. Desci com os meus pais até a Praia do Futuro. O Oceano Atlântico me surpreendeu com sua beleza, sua incrível extensão de água verde, com ondas brancas que rolavam até onde os meus olhos podiam ver, sob um céu claro e um sol de verão, brilhante e quente, cujos raios de luz eram afiados como canivetes.

Fiquei encantado com a visão e o som daquelas ondas sem fim e mal podia esperar para entrar na água. A princípio não fiquei com medo, como muitas crianças que ficavam a se deparar com aquele pedaço de infinito. Era como se me chamasse. Meus pais distraídos não me viram largar as sandálias na areia e correr freneticamente em direção ao mar.

Ninguém me avisou sobre o poder colossal de uma onda. Antes que eu soubesse o que tinha acontecido, fui atacado por uma parede de água em movimento e arremessado contra parte rasa da areia molhada. Sentei-me cuspindo e tossindo água salgada que passava ardendo em minha boca e nariz. Minha testa e meus braços estavam avermelhados e arranhados. Veloz como uma albatroz, a minha mãe veio em meu socorro e me levou para a faixa de areia. Fiquei magoado, chocado e, sobretudo, muito confuso.

Claro que tive medo de entrar no mar novamente. Sentei-me no raso e fiquei, ainda chateado, encarando as ondas. Olhava tudo: o horizonte, os surfistas singrando as águas, as pessoas nadando, as crianças brincando, os navios ao longe. Mesmo criança, assustado e atento, com o tempo, fui lendo as cadências das ondas, onde elas eram maiores, onde quebravam, o intervalo de uma onda a outra. Uma hora depois, para não desperdiçar aquela manhã de domingo, entrei no mar novamente, mas com os meus pais. Prevenido, o mar não me pegava mais. O medo cedeu lugar ao divertimento. E eu estava fazendo as pazes com ele, selando uma amizade duradoura.

Esse episódio, na Praia do Futuro, me marcou profundamente e me trouxe uma rica lição. A vida é como o mar. Em um minuto, estamos vadeando em águas pacíficas e, no momento seguinte, somos atingidos por uma onda poderosa que nos derruba. Às vezes, a onda estava lá, vindo em nossa direção, mas não dávamos importância. Uma onda pode nos deixar atordoados e sem fôlego. Somos derrubados, atirados na areia ou puxados para baixo. E se o mar nos arrastar e nos afundar, lutamos para respirar e voltar a superfície. A vida como o mar é repleta de ondas de alegria, de prazer, de dor e de tristeza que fluem incessantemente. Contudo, devemos respeitá-lo na sua imensidão, mistério e imprevisibilidade. Se aprendermos a lê-lo, se acostumarmos com ele, tentando conhecer os seus meandros e, claro, se aprendermos a nadar e a saltar suas ondas, ou mesmo surfar, não será antagonista, mas nosso amigo.

Ele está lá todos os dias, esperando-me por meus pés sobre suas águas e sentir a sua força infinita. A cadência perpétua do vasto mar traz essas ondas que fluem, ora calmas, ora agitadas. Perceber que a vida é um ciclo é importante, porque seremos constantemente gratos, visto que sempre haverá algo para ser grato, apesar das quedas e arranhões.

 


quinta-feira, 22 de outubro de 2020

A NORMALISTA – A ATUALIDADE DE UM ROMANCE POLÊMICO

Charles Ribeiro Pinheiro

Qual a relevância do romance “A normalista”, publicado em 1893, por Adolfo Caminha, escrito nos moldes do naturalismo, no qual retrata, implacavelmente, os vícios, as tramas, os dessabores, a bajulação política, as aparências sociais, a maledicência, o escárnio e a hipocrisia da sociedade de Fortaleza? Ao observar a sua estrutura narrativa e seus temas, percebemos que “A normalista” se insere na tradição dos romances que não servem apenas para o entretenimento, mas como forma de sensibilizar o leitor e de levá-lo a conhecer as intricadas relações sociais que são representadas no papel. A seguir, traçaremos um breve perfil do autor e discutiremos questões literárias e históricas expressivas acerca do polêmico romance.

O escritor, nascido no Ceará, em 1867, após perder a família durante a seca de 1877, parte para o Rio de Janeiro. Ingressou na Escola da Marinha, de onde saiu como oficial, aos vinte anos, em 1887. No ano seguinte, transferiu-se para Fortaleza, onde se apaixonou por Isabel Jataí de Paula Barros, esposa de um oficial do exército. O episódio causou escândalo em Fortaleza, forçando-o a pedir demissão da Marinha e assumir o compromisso com Isabel. 

Nos primeiros anos da década de 1890, tem uma intensa atividade jornalística na capital cearense. Em 1891, funda a “Revista Moderna” e, no ano seguinte, participou da primeira formação da Padaria Espiritual, irreverente grêmio literário e artístico formando na Praça do Ferreira, liderada por Antônio Sales. Em seguida, retorna com a família para o Rio de Janeiro, onde atuou na imprensa carioca. Acometido de tuberculose, faleceu em 1897, aos trinta anos. A sua obra não é vasta, porém é muito significativa. Após a publicação de um livro de poemas “Voos incertos” (1886) e um de novelas “Judite e Lágrimas de um crente”(1887), e do diário “No país dos Ianques” (1894), publicou as suas principais obras: ‘A normalista” (1893), “Bom Crioulo” (1895), “Cartas Literárias” (1895) e “Tentação” (1896).

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Bate-papo_A Normalista de Adolfo Caminha_Série bom Livro

 


Bate-papo sobre o romance “A Normalista” (1893), do escritor cearense Adolfo Caminha, com a participação do professor Charles Ribeiro Pinheiro, promovido pelo canal do Instagram @seriebomlivro, com a curadora do professor João Paulo Foschi, que realiza um importante trabalho de resgate da memória editorial dos clássicos da Literatura brasileira, publicados pela Editora Ática. Acompanhando a tradição dos romances de costumes, “A Normalista” é um dos mais polêmicos livros do naturalismo brasileiro, a realizar uma representação atroz da hipocrisia, da dominação masculina, da maledicência, da mesmice provinciana e da molecagem da cidade de Fortaleza, capital do Ceará, no final do século XIX. Bate-papo realizado no dia 18 de outubro de 2020, no ig

João Paulo Foschi, nascido em Crateús (CE), em 1980, possui formação acadêmica em Pedagogia e Letras (Francês), com pós-graduação na área de Semiótica e Literatura e mestrado em Literatura Comparada pela Universidade Federal do Ceará. Como ficcionista, publicou o romance “A condessa de Assis”. Idealizador e curador do projeto @seriebomlivro, no Instagram.
Charles Ribeiro Pinheiro é Professor de Literatura, graduado em Letras pela Universidade Federal do Ceará (2008). Mestre em Letras (2011) e Doutor em Literatura Comparada (2019), pela UFC, com pesquisas sobre Rodolfo Teófilo. Coordenador do projeto de extensão e docência “O entre-lugar na Literatura cearense” (2015-2018). Além de roteirista de quadrinhos, é autor de livros didáticos e conteudista de Literatura.

sábado, 10 de outubro de 2020

Bate-papo A normalista de Adolfo Caminha - Série Bom Livro

Não percam esse excelente bate-papo sobre o romance A Normalista (1893), do escritor cearense Adolfo Caminha. A Live conta com a participação do professor Charles Ribeiro Pinheiro e é promovida pelo canal @seriebomlivro que tem a curadora do professor João Paulo Foschi, que vem fazendo um importante trabalho de resgate da memória editorial dos clássicos da Literatura brasileira publicados pela Editora Ática. A Normalista é um dos mais polêmicos livros do naturalismo brasileiro, a realizar uma representação atroz da hipocrisia, do falso moralismo, da dominação masculina, da maledicência, da mesmice provinciana e da molecagem cearense da cidade de Fortaleza, Ceará, no final do século XIX. Não percam. É no próximo domingo, dia 18 de outubro.

https://www.instagram.com/seriebomlivro/?hl=pt-br

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Narradores de Javé: tensões e salvação pela palavra

 

“Narradores de Javé” é uma narrativa sobre narrativas. Lançado em 2003, com direção/roteiro de Eliane Caffé e roteiro de Luís Alberto de Abreu, conta com José Dumont; Gero Camilo; Rui Resende; Luci Pereira; Nélson Dantas; Nélson Xavier no elenco. É um dos filmes brasileiros mais premiados das últimas décadas, além de suscitar ricas e variadas possiblidades de interpretação.

O título do filme chama atenção por dois elementos essenciais de seu enredo: “Javé”, cenário da história, cidade pobre do interior da Bahia, que precisa ser salva de uma futura inundação, devido a construção de uma barragem hidroelétrica; e “narradores”, substantivo no plural, que corresponde aos habitantes dessa cidade, não apenas personagens, mas um conjunto dinâmico e polifônico de vozes, materializações efêmeras das experiências e histórias do povo. Portanto, o filme conta a luta de um povo para reconstituir a sua história, através da oralidade, para salvar a sua cidade da inundação.

O protagonista do filme é o próprio ato de narrar. Isso foi meticulosamente construído no roteiro de Caffé e Abreu. Quando nós narramos uma história, abrimos conexões. É assim que os humanos se comunicam desde o início dos tempos - contando histórias e nutrindo conexões. Contar histórias é universal e tão antigo quanto a humanidade. Antes de haver escrita, havia o ato de narrar. Ocorre em todas as culturas e em todas as épocas. Ela existe (e existiu) para entreter, informar, educar e promulgar tradições e valores culturais.

As pessoas, ao narrar histórias, dão forma as suas experiências e aos significados que essas experiências têm para suas vidas. Todas as culturas e sociedades também possuem suas próprias histórias sobre seu passado e seu presente e sobre sua visão do futuro. Essas narrativas incluem histórias de grandeza e heroísmo, ou de dor e sofrimento.

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Rodolfo Teófilo - Romancista Cearense

 

Baiano por acidente e cearense de coração, farmacêutico e literato, Rodolfo Teófilo (1853-1932) foi uma figura de intensa atuação política e cultural durante a passagem do século XIX ao XX no Ceará. Intelectual engajado, foi um ferrenho opositor da oligarquia Accioly (1896-1912); além de denunciar o descaso do governo em relação às secas, participou ativamente da campanha abolicionista (1881-1883) e, contrariando os seus opositores, conseguiu erradicar a varíola do estado do Ceará (1900-1907). A singularidade do naturalismo literário de Rodolfo Teófilo acentua-se através da presença constante da “cor local“, cujo objetivo era fotografar a nossa época, os costumes, índole e civilização do nosso povo. O seu romance de estreia é A fome (1890), que narra, com um estilo cru e dantesco, os flagelos assustadores, acontecidos durante a grande seca de 1877-78. Rodolfo Teófilo subtitulou o livro como “cenas da seca do Ceará“ e é considerado um dos textos mais fortes da literatura brasileira. O livro é eivado de descrições cruas e exageradamente cientificistas dos retirantes agonizando e morrendo devido à fome e à epidemia de varíola que assolou a capital cearense. Foi na década de 1890, que Rodolfo Teófilo participou da famosa Padaria Espiritual, da qual foi o seu último padeiro-mor (presidente). Por meio dessa agremiação literária, o farmacêutico publicou a maior parte de seus romances mais destacados: Os Brilhantes (1895), Maria Rita (1897), Violação (1898) e O paroara (1899). Rodolfo Teófilo tentou representar fidedignamente os problemas sociais, políticos e ecológicos do Ceará e do nordeste de sua época em suas obras literárias.

Pesquisa Acadêmicas sobre Rodolfo Teófilo 

Pesquisador: Charles Ribeiro Pinheiro

DISSERTAÇÃO: Rodolpho Theophilo: a construção de um romancista (2011).
Local: Programa de Pós-Graduação em Letras - UFC.
Orientação: Prof.ª Dr.ª Odalice de Castro Silva.
Resumo: Esta dissertação realizou uma investigação da formação intelectual e literária de Rodolfo Teófilo (1853-1932), verificando como se deu o seu amadurecimento como ficcionista em O paroara (1899). Para tal propósito, situamos, de maneira crítica, o referido autor em sua conturbada época e espaço social: a Fortaleza da Belle Époque. A pesquisa dividiu-se em três capítulos: o primeiro relacionou o escritor ao contexto em que está inserida a sua obra ficcional, além do estudo de seu campo intelectual e literário; no segundo, o estudo da dinâmica dos processos de leitura e desleitura e, no terceiro capítulo, como ocorreu a construção do estilo naturalista-regionalista de Rodolfo Teófilo. Ele realizou uma desapropriação poética da escola naturalista e atingiu uma escritura singular, recriando o regionalismo, tornando-se precursor da chamada Literatura das secas. Bolsa: FUNCAP.

Disponível em: PINHEIRO, C.R. 2011_UFC


TESE: Rodolfo Teófilo polemista: a crítica polêmica como estratégia de glorificação literária.
Local: Programa de Pós-Graduação em Letras - UFC.
Orientação: Prof.ª Dr.ª Odalice de Castro Silva.
Resumo: A presente pesquisa investigou as polêmicas literárias de Rodolfo Teófilo, enfatizando os textos críticos publicados na imprensa cearense, como estratégias para atingir a glorificação literária. O escritor confrontou Adolfo Caminha, José Veríssimo, Rodrigues de Carvalho, Gomes de Matos, Osório Duque Estrada e Meton de Alencar em textos estampados em diversos periódicos, posteriormente reunidos na obra Os meus zoilos (1924). O livro dialoga intensamente com os debates da inteligência nacional do final do século XIX, os quais revelam tensões entre vários centros literários, tais como o Rio de Janeiro, Recife e Fortaleza. O escritor integra uma tradição de polemistas brasileiros, a qual teve como importantes representantes José de Alencar e Silvio Romero. Bolsa: CAPES-DS.
Disponível em: PINHEIRO, C.R. 2019_UFC


Portfólio Acadêmico e literário: Portfólio - Charles