Pedro Salgueiro nasceu no Ceará (Tamboril, 1964). Publicou O Peso do Morto (1995), O Espantalho (1996), Brincar com Armas (2000), Dos Valores do Inimigo (2005) e Inimigos (2007), de contos; além de Fortaleza Voadora (2007), de crônicas. Edita, em parceria, as revistas Caos Portátil e Para Mamíferos. Organizou as coletâneas Almanaque de Contos Cearense (1997) e O Cravo Roxo do Diabo: o conto fantástico no Ceará (2011).
quarta-feira, 6 de janeiro de 2016
Otto Maria Carpeaux: "A literatura não existe no ar"
Otto Maria Carpeaux nos ensina que a literatura como sistema faz parte de outro sistema maior, a civilização:
“A literatura não existe no ar, e sim no Tempo, no Tempo histórico, que obedece ao seu próprio ritmo dialético. A literatura não deixará de refletir esse ritmo – refletir, mas não acompanhar. Cumpre fazer essa distinção algo sutil para evitar aquele erro de transformar a literatura em mero documento das situações e transições sociais. A repercussão imediata dos acontecimentos políticos na literatura não vai muito além da superfície, e quanto aos efeitos da situação social dos escritores sobre a sua atividade literária será preciso distinguir nitidamente entre as classes da sociedade e as correspondentes “classes literárias”. A relação entre literatura e sociedade – eis o terceiro problema – não é mera dependência: é uma relação complicada, de dependência recíproca e interdependência dos fatores espirituais (ideológicos e estilísticos) e dos fatores materiais (estrutura social e econômica)” (2011, p. 39).
CARPEAUX, O. M. Introdução. In: CARPEAUX, O. M. História da Literatura Ocidental. São Paulo: LeYa, 2011.
Akira Kurosawa Sonho 5 "corvos" - Diálogo com Van Gogh
No belo filme do cineasta japonês, Akira Kurosawa, Sonhos (1990), EUA/Japão, organizado em torno de 8 narrativas ou "sonhos'. No 5º sonho, intitulado ‘Corvos”, um estudante de artes, ao contemplar os quadros de Van Gogh em um museu, entra neles e tentar seguir o pintor. O jovem consegue encontrá-lo e tem um intenso dialogo com o artista, mas o perde de vista em meio dos trigais da pintura “Campo de trigo com corvos”. Essa pequena e arrebatadora peça audiovisual de Kurosawa nos permite refletir sobre os múltiplos aspectos da arte, principalmente a relação entre a obra e o leitor/expectador, no momento da ‘leitura’, ou seja, no momento de sua fruição estética, no qual reescrevemos a obra de arte a partir de nossa imaginação. No trecho do filme, Van Gogh é interpretado pelo cineasta Martin Scorsese. Fica o convite para que todos assistam o filme Sonhos, de Kurosawa.
Sonhos (PT/BR)
Japão/Estados Unidos
1990 • cor • 119 min
Direção-Akira Kurosawa
Roteiro:Akira Kurosawa
Elenco:
Akira Terao
Mitsuko Baisho
Toshie Negishi
Martin Scorsese
Gênero:drama/fantasia
Idioma:japonês
quinta-feira, 31 de dezembro de 2015
Leituras para o 6º Encontro - 07 de Janeiro de 2016
6º Encontro – Instinto de nacionalidade ou de cearensidade.
ASSIS, Machado de. “Notícia da atual literatura brasileira: instinto de nacionalidade”. In: O jornal e o livro. São Paulo: Companhia das letras, 2011.
BORGES, Jorge Luís. “O escritor argentino e a tradição”. In: Obras Completas. Vol. 1. Vários tradutores. São Paulo: Globo, 1999.
Poeta de meia Tigela. “História cosmológica do boi”. In: Memorial Bárbara de Alencar & outros poemas. Fortaleza: Expressão Gráfica, 2008.
sábado, 12 de dezembro de 2015
Leituras para o 5º Encontro - dia 17 de Dezembro
Tema: Literatura do norte e do sul: um debate que persiste.
Leitura e discussão dos textos:
TÁVORA, Franklin. “Prefácio do autor” e
“Capítulo I”. In: O Cabeleira. Rio
de Janeiro, Ediouro, s/d.
ALENCAR, José de “Benção paterna”. In: Sonhos
d’ouro. São
Paulo: Ática, 1981.
CAMPOS, Moreira. “O preso”. Dizem que os cães veem coisas.
Fortaleza: Edições UFC, 2002.
![]() |
| Ilustração do conto O preso - Moreira Campos |
segunda-feira, 7 de dezembro de 2015
Leituras para o 4º encontro
4º Encontro – 10 de Dezembro - Sistema literário: um conceito renovador.
Leitura e discussão dos textos:
CÂNDIDO, Antônio. “Introdução”. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos. 6. ed. Belo Horizonte, Ed. Itatiaia, 1981. v. I.
CAMINHA, Adolfo “Capítulo IV”. In: A Normalista. Apresentação: Sânzio de Azevedo. Fortaleza: Editora ABC, 1997.
Salgueiro, Pedro. “Escritor de província”. In: O espantalho. Fortaleza: Editora UFC, 1996.
Jorge Luís Borges - Poema "Arte Poética"
ARTE POÉTICA
Tradução de Rolando Roque da Silva
Mirar o rio, que é de tempo e água,
E recordar que o tempo é outro rio,
Saber que nos perdemos como o rio
E que passam os rostos como a água.
E sentir que a vigília é outro sonho
Que sonha não sonhar, sentir que a morte,
Que a nossa carne teme, é essa morte
De cada noite, que se chama sonho.
E ver no dia ou ver no ano um símbolo
Desses dias do homem, de seus anos,
E converter o ultraje desses anos
Em uma música, um rumor e um símbolo.
E ver na morte o sonho, e ver no ocaso
Um triste ouro, e assim é a poesia,
Que é imortal e pobre. A poesia
Retorna como a aurora e o ocaso.
Às vezes, pelas tardes, uma face
Nos observa do fundo de um espelho;
A arte deve ser como esse espelho
Que nos revela nossa própria face.
Contam que Ulisses, farto de prodígios,
Chorou de amor ao avistar sua Ítaca
Humilde e verde. A arte é essa Ítaca
De um eterno verdor, não de prodígios.
Também é como o rio interminável
Que passa e fica e que é cristal de um mesmo
Heráclito inconstante que é o mesmo
E é outro, como o rio interminável.
ARTE POÉTICA
Mirar el río hecho de tiempo y agua
y recordar que el tiempo es otro río,
saber que nos perdemos como el río
y que los rostros pasan como el agua.
Sentir que la vigilia es otro sueño
que sueña no soñar y que la muerte
que teme nuestra carne es esa muerte
de cada noche, que se llama sueño.
Ver en el día o en el año un símbolo
de los días del hombre y de sus años,
convertir el ultraje de los años
en una música, un rumor y un símbolo,
ver en la muerte el sueño, en el ocaso
un triste oro, tal es la poesía
que es inmortal y pobre. La poesía
vuelve como la aurora y el ocaso.
A veces en las tardes una cara
nos mira desde el fondo de un espejo;
el arte debe ser como ese espejo
que nos revela nuestra propia cara.
Cuentan que Ulises, harto de prodigios,
lloró de amor al divisar su Itaca
verde y humilde. El arte es esa Itaca
de verde eternidad, no de prodigios.
También es como el río interminable
que pasa y queda y es cristal de un mismo
Heráclito inconstante, que es el mismo
y es otro, como el río interminable.
De El Hacedor (1960)
Tradução de Rolando Roque da Silva
Mirar o rio, que é de tempo e água,
E recordar que o tempo é outro rio,
Saber que nos perdemos como o rio
E que passam os rostos como a água.
E sentir que a vigília é outro sonho
Que sonha não sonhar, sentir que a morte,
Que a nossa carne teme, é essa morte
De cada noite, que se chama sonho.
E ver no dia ou ver no ano um símbolo
Desses dias do homem, de seus anos,
E converter o ultraje desses anos
Em uma música, um rumor e um símbolo.
E ver na morte o sonho, e ver no ocaso
Um triste ouro, e assim é a poesia,
Que é imortal e pobre. A poesia
Retorna como a aurora e o ocaso.
Às vezes, pelas tardes, uma face
Nos observa do fundo de um espelho;
A arte deve ser como esse espelho
Que nos revela nossa própria face.
Contam que Ulisses, farto de prodígios,
Chorou de amor ao avistar sua Ítaca
Humilde e verde. A arte é essa Ítaca
De um eterno verdor, não de prodígios.
Também é como o rio interminável
Que passa e fica e que é cristal de um mesmo
Heráclito inconstante que é o mesmo
E é outro, como o rio interminável.
ARTE POÉTICA
Mirar el río hecho de tiempo y agua
y recordar que el tiempo es otro río,
saber que nos perdemos como el río
y que los rostros pasan como el agua.
Sentir que la vigilia es otro sueño
que sueña no soñar y que la muerte
que teme nuestra carne es esa muerte
de cada noche, que se llama sueño.
Ver en el día o en el año un símbolo
de los días del hombre y de sus años,
convertir el ultraje de los años
en una música, un rumor y un símbolo,
ver en la muerte el sueño, en el ocaso
un triste oro, tal es la poesía
que es inmortal y pobre. La poesía
vuelve como la aurora y el ocaso.
A veces en las tardes una cara
nos mira desde el fondo de un espejo;
el arte debe ser como ese espejo
que nos revela nuestra propia cara.
Cuentan que Ulises, harto de prodigios,
lloró de amor al divisar su Itaca
verde y humilde. El arte es esa Itaca
de verde eternidad, no de prodigios.
También es como el río interminable
que pasa y queda y es cristal de un mismo
Heráclito inconstante, que es el mismo
y es otro, como el río interminable.
De El Hacedor (1960)
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